sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O espetáculo

Compartilhando sonhos.
Numa mistura de O Palhaço, Capitu com as escolas ao som de Beirut, Orquestra Voadora e Banda Marcial Marista,  meu sonho dessa noite foi uma delícia. Por isso, resolvi compartilha-lo na integra correndo o perigo de não fazer o menor sentido, mas irie copiá-lo como está no caderno dos sonhos.

31.01.14.
O local parecia como um pequeno casarão, com uma grande sala no centro de um espaço em formato da letra U e com dois andares.
O espetáculo era simples e sincero, todos os artistas que eram também plateia estavam espalhados pelos corredores, nos andares para observar o número do centro.
Os músicos maquiados como num circo eram brincalhões e estavam em todo lugar; uma tuba ali, uma sanfona aqui, a precursão era tudo aquilo que fazia som. Trompetes e trombones, flautas e até mesmo um belíssimo piado de cauda no segundo andar próximo a escadaria.
Do alto do teto dois amantes em um único tecido faziam piruetas e encantavam ao público. Corpos perfeitos e maquiagem brilhante.
O número do centro é das crianças douradas orquestradas pelos maestros Chico (de espanhol) e Leo (do circo) que com suas batutas e apitos harmonizavam a dança. De todos os lugares, crianças planam com roupas douradas que refletem luz para todo o pequeno espaço. Parecem pequenos budas a levitar.
Meu número é o próximo, coloco minha cartola, arrumo minha gravata e meu chicote e vou ao centro apresentar o Simba, um filhote de leão feroz para a plateia mas dócil como um gato. Minha performance está entre o perigo (falso) e o riso. Minha ajudante é a bela e ruiva Thyane. Simba está sentado ameaçadoramente, então ordeno que ele solte um rugido que espantasse as multidões do mundo, ele lambe meu rosto e todos riem. Nova tentativa, rufam os tambores, dou a ordem, estalo o chicote no ar e ele se deita com a barriga para cima pedindo carinho, novas risadas da plateia. É então que ele se senta, olhando para Thyane e para mim diretamente, percebe meu comando e antes mesmo do fim das risadas solta um belo rugido. Do público saem gritos assustados, mas em seguidas as palmas para Simba o filhote feroz.
Próximo número, as dançarinas exóticas com fogo e espadas. As belas meninas passam por mim e entram no palco com suas velas e incensos acesos, o tom da banda muda para algo mais intenso, de suspense, a luz escure e então uma das meninas cospe fogo na multidão, susto e aplausos.
Olho para tudo, feliz com o resultado. Olho no próximo andar e vejo Jônio e Nagui se preparando para o número de contorcionismo, dessa vez ela vai dentro da caixa como uma boneca de pano.
Vejo a Lara dançando, linda no palco, com suas laminas, velas e veus. Continuo a olhar ao centro e vejo meus bons amigos Lu e Digão entrelaçados nos tecidos que caem do teto. Ao fundo estão a Biboca, o Fabio e a Dê fotografando e filmando tudo. A Banda é claro, todos os músicos são os da banda de Brasília do Marista com a adição de uns camaradas listrados nos instrumentos de cordas.
Olho para tudo e fico feliz com nosso espetáculo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O dilema


Esses dias eu estava lendo um texto do Luís Fernando Veríssimo chamado ‘A Primeira’, texto esse do livro Literatura & Futebol organizado pela Revista Bravo. Bem interessante o livrinho, reúne grandes nomes da literatura brasileira, do Romântico Drummond e seu amor pelo futebol mineiro (mesmo sendo ele Vascaíno) a Ucraniana Carioca Clarice Lispector , todos envoltos na temática futebol.

Veríssimo, sempre saudoso em suas divertidas crônicas conta a experiência vivida por ele no belíssimo momento entre o ganhar uma bola nova e o primeiro chute e toda a gama de sensações e sentimentos que isso trazia a tona da cabeça de uma criança durante a infância dele.

“ Hesitava-se muito antes de dar o primeiro chute na bola nova (...) Era um dilema, você não conseguia resistir ao impulso de levar a bola para a calçada e começar a narrar seus próprios movimentos com ela como um locutor entusiasmado (...) e ao mesmo tempo queria prolongar ao máximo aquela sensação de couro novo, intocado, nas mãos”

Pois bem, algo próximo a esse dilema pessoal me ocorreu hoje, mas no meu caso, a primeira remada no asfalto. Mas antes, assim como Veríssimo, voltarei aos dias de minhas infância, pelo menos ao momento histórico dela, já que a sensação já foi vivida minutos atrás.

Em minha infância, não fui uma criança muito comum, ou pelo menos, era o que eu achava naquela época. Filho único de pais jovens e separados, vivi boa parte de meus anos iniciais na casa de meus avós maternos, estudava em uma ótima escola, (sendo neto de mineiros católicos e militares, estudei a vida toda na congregação Marista, os quais vivi meus melhores e piores anos da vida).
Ao contrário dos demais meninos, quando o badalo do recreio batia, andava calmamente para o pátio sem o menor interesse de pegar o campinho ou o melhor golzinho da escola e, ainda, para o espanto de todos, não tinha um time de preferência para me nutrir futuros ataques cardíacos ou no caso escolar para insultar meus demais colegas, dizia (assim como digo até hoje) que era do Atlético Mineiro (time de boa parte da família materna) ou Vascaíno (time da família paterna) dependendo de quem estivesse melhor, mas nunca soube nenhum técnico ou grande jogador de nenhum deles.

Meu tio até chegou a ter aquela conversinha comigo, imagino eu que preocupado de me tornar o “primo gay” da família, pois para os padrões maniqueístas dele não era possível não jogar bola, não ter time e ainda por cima, gostar de jogar queimada. No país do futebol é lei, nasceu menino, vai ser astro do futebol, mas meu estrelato com nos gramados verdes estava cada vez mais distante.

Me lembro bem na Copa de 94, o único momento em que o futebol me agradava, cometi a gafe clássica perante toda a família – mas por que ninguém toca para aquele de preto? Ele fica ali pedindo a bola com o apito e ninguém passa pra ele – eis que o mundo de minha família desmoronou, o único neto, não sabia nem mesmo diferenciar quem era o juiz em campo. Acho que ali ficou claro, eu seria O primo gay da família.

Os anos passaram, eu continuei a não gostar de futebol,tão pouco de meninos, mas era craque em pique e esconde e policia e ladrão, devido a minha pequena estatura e magreza conseguia escalar facilmente arvores ou me esconder em lugares minúsculos. Na hora de escolher os times, era sempre o primeiro a ser escolhido, ao contrário, lógico, do futebol na escola (obrigatório nas aulas de Ed. Física).

Como toda criança, eu também tinha meus panteon do esporte: 
Sandro Dias, o Mineirinho era o meu preferido, também de família mineira, também pequeno, mas com um skate no pé eles desbancava todos os gigantes. Além do Mineirinho, eu sempre acompanhava (do verbo, comprava os VHS dos X-games e assistia uma centena de vezes) um cara novo chamado Chris Charma, que se tornaria em poucos anos o melhor escalador que já existiu.

Meu sonho era ser estiloso como Bob Burnquist, até fui as lojas de skate comprar calças largar (sim, naquele tempo, skatista usava calça larga, bem larga) para ver se melhorava, mas a habilidade nos pés não vinha de brinde, no máximo, quando o jeans já estivesse rasgado de tanto cair, um básico oli e quem sabe um varial  flip de base invertida, mas aí já era para os profissionais, ou os prós como costumávamos dizer.

Pronto, o “problema familiar” está resolvido, o garoto (no caso eu) gosta é de skate – disse meu tio com um sorriso no rosto. E lá se foi toda a família comprar um skate novo para a criança, mas principalmente, para manter o status de família padrão. Nunca vi tamanha mobilização para me dar um presente. O mais engraçado disso tudo foi ver o Brigadeiro Sobreira e sua esposa (também conhecidos como avô e avó) indo comigo para o submundo da capital federal em busca do tão sonhado skate.

- Mas você tem certeza que é por aqui meu filho? Perguntava meu avô horrorizado com os trajes dos frequentadores do lugar – veja meu filho, alguns deles tem até tatuagem, isso não é gente muito correta sabe, não é melhor comprar esse seu skate lá no shopping, eu vi uns lá bem bonitos?

- Não vô, aqui são os melhores, aqueles lá são para crianças – disse eu do auge dos meus onze anos de idade – podexá que o pessoal aqui é tranquilo, venho sempre aqui comprar revistinhas.
Antes que meu avô entrasse em mais uma discussão moral sobre as vestimentas alheias, o puxei para a loja e já fui montando meu skate. Fun House era o nome da loja e Ferrugem era o vendedor (o mesmo Ferrugem que viria a se tornar um grande skatista no final dos anos 90). Escolhe shape – ta quanto o Santa Cruz Ferrugem?

- Ih garoto, ta caro viu, nem o Burnquist usa um desses.

- Poutz, deixa então, vou de nacional mesmo, me passa aquele ali vermelho (para auxiliar no horror de minha avó catolica, o desenho do shape era de uma demonio assediando uma magnifica loira)

Truque escolhido e aparafusado, rolamentos em perfeita ordem, rodinhas novas, lixa com um corte para identificar o tail, tudo colocado em perfeita ordem e pronto pra uso e é então que o momento mágico acontece, milhoes de pensamentos passam por minha cabeça e entre eles a não vontade de colocar o skate no chão para não arranhar nada. Em minha mente, eu desejava com todo o meu ser ter esse mesmo skate todo ralado, mas ele é novo, seu truque arranhado de tantos corrimões que desceria, mas ele é novo, sua lixa trocada de tão gasta, mas ele é novo, seu shape lascado dos vários saltos e consequemtemente tombos, mas ele é novo.

Foi então que num fechar de olhos, joguei o skate no chão e pulei em cima dele, o coraçao a mil, como é lindo esse som da rodinha no asfalto, ouço os outros próximos, o barulho da madeira tocando o chão da descida do salto, arrisco um eu mesmo, o resultado é claro, skate para um lado e eu de costas no chão, rindo e passando a mão na bunda pela dor na queda.

Toda essa história foi para contar que hoje eu comprei um skate novo, depois de mais de uma década sem pisar em um, comprei um long é claro, não tenho mais os joelhos dos meus treze anos, mas o dilema vivido em minha infancia foi o mesmo. As rodinhas brancas em pouco tempo se tornaram marrom e minhas pernas estão um pouco doloridas, mas pouco importa, lá estava eu, novamente, deslizando pelo calçadão de Ipanema.

Veríssimo termina seu texto dizendo que “correr atrás da bola é o que todos nós continuamos fazendo, tamanhos homens, até hoje. E continua bom.” Cada qual com seu James Brow, mas realmente Veríssimo, continua muito bom


Bob  Burnquist

Sandro Dias, o Mineirinho

Chris Charma

Calçadão de Copacabana

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Cidade Maravilhosa


Próxima parada: Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa.

Popular em todo o planeta por suas belas praias, mulheres e noitadas a cidade maravilhosa é e eternamente será digna do clichê “o Rio de Janeiro continua lindo”. Realmente essa cidade é linda, mobilidade ótima, metrô a cada 5 minutos que leva para todos os lugares da cidade com apenas uma passagem, NO QUAL OS ESTUDANTES DE ESCOLAS PÚBLICAS NÃO PAGAM, faixas exclusivas para os ônibus diminuindo o transito, além o incetivo ao uso de recursos sustentáveis como bicicletas a baixíssimo custo (10,00 por mês) e ciclovias que cortam boa parte do acesso as praias, locais de comum congestionamento durante a estação do verão.

As pessoas andam na rua sorrindo e fazendo brincadeiras um com os outros. Costume esse muito interessante da população carioca, a interação gratuita. Estar numa fila de super mercado, no ponto de ônibus ou mesmo no banheiro de uma festa é certeza que alguém irá puxar papo contigo aleatoriamente, sobre qualquer assunto, como se fossem conhecidos desde o tempo de escola. O mais interessante é que o assunto encerrado, a condição de desconhecidos volta ao patamar inicial e cada um segue seu caminho. Uma pequena dose de conversa gratuita.

Mas uma coisa é alarmante no costume carioca, especificamente nos condutores do transporte pública amarelo conhecido como táxi, ou TX a moda carioquês. Existem três tipos de direção, a defensiva, comum a uma pequena parcela de motoristas, normalmente mais idosos, ofensiva, quadro geral da população brasileira e o modo motorista de taxi no Rio de Janeiro, também conhecido como método GTA de direção. Da vinda da rodoviária (centro da cidade) até aqui na Zona Sul, eu contei sete tentativas de derrubar motociclistas (uma por pouco não bem sucedida), quatro coladas na traseira alheia e pelo menos vinte fechadas enquanto brinca de corte e costura sem usar setas. E é claro, um aumento exponencial no meu acervo de xingamentos para o transito.

Existem alguns outros costumes cariocas clássicos, que mesmo sendo você de outra cidade ou estado, rapidamente se adéqua a esse. O clássico “aie, vamos marcar uma cerveja hein – vamos sim, te ligo” e a tal cerveja nunca acontece. Esse costume é tão costume que já faz parte da cultura carioca ao ponto que ninguém fica mais bravo ou dispensa tempo algum para explicações da ausência no tal encontro.

Como é comum na maioria das praias brasileiras, o Rio também compartilha do ideal de segregação social e estéticos para a escolha de qual deve ser o local a ser frequentado na praia, ou popularmente conhecido como o point (gíria essa usual desde o tempo em que minha avó era garotinha de Ipanema). Em minha ultima visita (quatro anos passados) o point ficava na praia de Ipanema, a famosa pela bela garota de Vinícius, entre os postos 09 e 10. Especificamente o 10 era a galera a favor da liberação política da Canabis e o 09 era os que apoiavam a diversidade sexual. Entre esses dois postos, lá se localiza toda a galera dedicada a vida social na praia, com seus corpos esculturais e papos vazios. Homens pombos como me explicou o meu carioca e bom entendedor dessas práticas sociais, primo Marquinhos.

Agora em 2012 alguns fatores moveram tal grupo estético e social para alguns postos a cima. Fator 01: Agora o metrô também vai a Ipanema, o que necessariamente leva os grupos sociais C e D para os postos 09 e 10. Fator 02: Devido a política em prol dos diretos dos homossexuais, o posto 09 se manteve como o local de encontro dos grupos GLS, com direito a bandeiras e sungas bem coloridas e beijos públicos, vitória para eles. Fator 03: Os usuários de maconha perderam seu espaço, tanto geográfico como político, pois o combate ao fumo (felizmente) aumentou e com isso os cigarros de maconha também entraram no hall do incomodadores públicos. 

Mas não há interesse em nenhum da classe média burguesa zona sul carioca em se unir ao pessoal “favelado” como dito no carioquês. Então eles migraram para o posto 12, na praia do Leblon, agora limpa graças ao Fator 04: Os últimos prefeitos têm feito um  intensivo trabalho de despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas, lagoa essa que desemboca na praia do Leblon. Então somados a esses e outros fatores modais que realmente são incompreensíveis o novo point é o Posto 12.  

No posto 12 sim, gente bonita para todo lado, com todo o arsenal estético e social necessário, óculos Rabiam no rosto (os mesmo que minha avó usava), biquínis e bermudões fabricados na china e etiquetados na Itália e seus celulares conectados das redes sociais para saber “qual é a boa da night”.

Mas o que mais me chamou a atenção nesse grupo específico está longe do padrão global de beleza, mas o costume noturno. Meu primo, como um bom anfitrião, me levou para o lugar mais badalado da cidade. Tratando-se de Rio de Janeiro, o esteriótipo da favela é mais que comum, e lá fomos nos, morro a cima. Na quadra do Santa Marta, ou Morro da Alegria. Devido a política de pacificação das favelas, hoje os morros cariocas são tranquilos e frequentados por todos. Uma expropriação do poder local e transferência do lucro diretamente para as milicias urbanas e Estado na verdade, mas com isso, todo playboy e patricinha da burguesia carioca pode realizar o sonho de subir o morro e dançar na escola de samba e manter o status de conhecedor das origens da cultura carioca. 

Curiosidade a parte, não havia na festa um integrante da população local do morro, apenas patricinhas e playboys extremamente bem vestidos. Preço para entrar, 50 reais por pessoa e cada cerveja a 7,00 reais. Final da conta de três pessoas que não consomem tanto 230,00! A pergunta fica, qual individuo, morador daquela localidade tem condição de pagar tanto por uma noite? E ainda mais importante, o quanto desse dinheiro fica realmente para a comunidade do Santa Marta? Vi ali policiais fortemente armados ( e jovens, teoricamente, para não repetir os vícios de seus antecessores ligados a prática da mesada do tráfico de drogas), vi bancos onde pude sacar o montante para aproveitar a minha noitada como um clássico burguês zona sul, mas não vi hospital ou escola.

Se o Rio de Janeiro continua lindo, é lógico que sim. Se vive nas ruas um clima de tranquilidade e paz como há muitos anos não se via, turistas se hospedam no Vidigal e a vista mais bela do réveillon não foi a de costumeira Copacabana, mas a da Favela da Rocinha, também pacificada, de onde os turistas e locais puderam contemplar todo o espetáculo da orla carioca. Mas ainda é necessário manter os olhos abertos, pois a pacificação a força está tirando os poderes locais e abrindo espaço para um novo tipo de organização, que não usa sandálias, mas terno e gravata. Torço de todo o meu coração para que a Cidade Maravilhosa possa viver em harmonia sempre, mas que para isso, toda a população carioca, do playboy zona sul ao morador do Santa Marta, possa viver também em harmonia e em boas condições!

Vídeo sobre a desocupação das favelas em prol das construções para as Olimpíadas e Copa do Mundo

                        Foto tirada da favela da Rocinha pacificada no Réveillon de 2012

                         Arte na areia, praia da Copacabana, Rio de Janeiro 2012 


domingo, 4 de setembro de 2011

2.5: O ano em que virei adulto


Colando grau em História pela UFSC

Como de costume ao somar mais um número em minha cronológica linha da vida, faço uma pequena e singela reflexão escrita sobre como foi o ano que passou, para quando estiver mais velho (bem mais) e minha memória já não tiver condições de sequenciar fatos e acontecimentos importantes, buscarei esses arquivos e textos, mantendo sempre um gancho com meu próprio passado.
Lógico que aos 60 e 70 tudo isso (caso ainda existe) será lido de uma forma muito mais romântica que hoje escrevo, mas ainda sim, servirá de ancora para minhas recordações.

Pois bem, os 25 anos:
Esse definitivamente foi o ano em que eu virei adulto, não vejo outra definição para esse ano que não essa. É bem provável que em dois ou mais anos eu me ache um tolo por considerar esse o ano adulto, mas hoje tenho reais motivos para acreditar que foi aos vinte e cinco anos de idade que fiz a passagem da vida jovem para a adulta.
Por exemplo, aos vinte e cinco anos eu me formei. (Foi ao vinte e seis na verdade, mas não conta, pois foi somente cinco dias depois de meu aniversário.) Foi aos vinte e cinco que entrei no cansativo processo da monografia, processo esse que tive pouca ou quase nenhuma orientação daquela que deveria me orientar, a não ser no primeiro encontro quando ela assinou o documento oficializando a orientação e no ultimo encontro minutos antes da apresentação perante a banca. Ou seja, li muitos livros, mais que deveria para uma monografia, mas o resultado final foram 120 páginas escritas e ilustradas e um 9,5 extremamente satisfatório.
Mas antes mesmo disso, percebi que estava em processo de transição, quando perdi totalmente o gosto pelas festas universitárias, normalmente composta por pessoas bêbadas e cerveja ruim e barata, mas muito divertidas. Festas essas que anos antes, somado ao Restaurante Universitário e a aulas de alguns professores específicos era o principal motivo de não querer sair da universidade nunca. Cada vez mais eu preferia beber menos cerveja ruim, ter menos barulho, conversar em voz mais baixa, resumindo, ficando velho.
Outro fator que contribuiu e muito para minha transição foi minha namorada, primeiro o fato de começar a namorar e sério, nada de “to contigo, mas to por aí”. Sério mesmo, de sairmos em casal para ver filmes suecos de casais homossexuais com problemas para adotar um jovem e depois ir a pizzaria conversar sobre filmes, artes e história.
A relação ficou tão séria que quando percebi estava lavando minhas roupas na casa dela e separando as minhas meias das dela. A mudança da vida de solteiro farreiro para namorado caseiro foi gradual e saudável, tanto que não sinto falta hoje da farra e durmo feliz ao lado dela todos os dias. Meus programas mudaram, são geralmente pizzas, sushis, cinemas, teatros, pipoca (e muita pipoca) com DVDs debaixo das cobertas. Alguns programas foram somados com a presença dela, como passear com o Thor aos domingos pela beira mar ou ir escalar nas sextas-feiras à noite.
Outro fator que contribuiu e muito para minha transição foi o número de aulas e turmas (e conseqüentemente provas e trabalhos) ter aumentando exponencialmente. Sou agora oficialmente um professor de História, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente trabalho em três escolas, duas dessas extremamente conceituadas aqui em Florianópolis.
O aumento de turmas gera também o aumento salarial, o que é maravilhoso e fundamental para a transição, pois quando estudante, eu sempre estava lascado por não ter grana, segurando daqui, apertando dali, comia e jantava no RU para ter mais grana no fim do mês e por aí ia. Agora com o maior salário, posso me dar ao luxo de sair sem me preocupar tanto, lógico que estou longe de nunca mais me preocupar com dinheiro, afinal, não ganhei na mega-sena ainda. Mas que agora as coisas estão bem mais aliviadas, ah estão!
Alguns sonhos da juventude não mudaram, mas agora posso pensar realmente em fazer a minha viagem e ir a Cuba e depois descer pela América Latina de moto, jipe, mula... 
Ah sim, foi aos vinte e cinco que nasceram meus primeiros cabelos e barbas brancas, o que sinceramente achei muito injusto de minha genética, pois minha barba ainda é falha e cheia de defeitos como a de um garoto, mas já apresenta fios brancos e loiros (potencialmente brancos e alguns anos). Quanto ao meu cabelo, a calvície genética também se manifestou mais aos 2.5, também não curti muito, ainda tenho muito apego a minha antiga juba de leão.
Mas o pior mesmo foi o rápido desenvolvimento de uma barriguinha. Lesionei o ombro escalando no início do ano e tive de parar de treinar tudo por pelo menos oito meses, fora que ao final da fisioterapia, acupuntura e reza brava para curar tal ombro, entrei na temporada TCC e me afundei em livros, café, chocolate e cobertores, só parando para trabalhar, namorar um pouco e dormir (as vezes).  Logo, meu corpo ganhou alguns bons Kgs (oito ao total) e desenvolvi uma localizada barriga. Barriga essa que estou me esforçando para perdê-la novamente, pois voltei a treinar (bem leve) e agora com uma companheira o que deixa o treino ainda melhor.
Bom, prova máxima da saída de minha vida universitária jovem para a adulta é que ontem fui a uma festa, jantar de aniversário de minha coordenadora. De lá, voltei não eram nem meia noite e agora tenho de me arrumar para almoçar em um domingo com meu sogro e sogra.

Mas sabe que eu to feliz assim, sendo adulto!

domingo, 28 de agosto de 2011

Discurso da Formatura de História UFSC


Boa noite a todos os presentes, autoridades e colegas...
Em primeiro lugar, queremos agradecer àqueles que, de alguma forma, sempre estiveram ao nosso lado durante essa caminhada e que fizeram dos nossos os seus objetivos. Esta alegria hoje comemorada, devemos a vocês, pais, que não mediram esforços para que isso tudo se tornasse possível.
Nós duas que estamos aqui nesta Tribuna permanecemos por alguns boooons anos nesta Universidade...
Assistimos a várias formaturas... de História, dos nossos colegas das Ciências Humanas, e também de outros cursos dos mais diversos centros.
Passamos a graduação desnaturalizando as comemorações e as cerimônias, e analisando os discursos. E agora, estamos aqui seguindo esse mesmo padrão...
O conceito de formatura muito semelhante ao termo latino, se aproxima muito do significado de padronização.
“Formatura” tem parentesco com as palavras “formatar”, “formatado”, /fôrma/..
Então, se você está se formando hoje pode significar que você entrou na /fôrma/, foi formatado...
Falando em formatação, já aviso aos colegas que ainda não fizeram o TCC que agora o tamanho não é mais o do papel A4... agora o TCC tem que caber em papel A5... segundo as indicações da biblioteca universitária.
Formatar é, portanto, padronizar! Talvez por isso tantos alunos geniais abandonem os mais diversos cursos de graduação... quem sabe eles sejam grandes demais para caber em uma forminha...
Nós, apesar de nos sentirmos ‘formatados’ nesta roupinha padronizada, estamos contentes de estar aqui falando o que pensamos ...
Estaríamos equivocados se falássemos sobre as noites em claro que os alunos desta turma passaram estudando para as provas, ou qualquer coisa desse blá blá blá padronizado. Ou, ainda, se inventássemos ou forjássemos tradições para esta turma, só para agradar aos ouvidos de todos os presentes.
Aliás, aproveitamos para falar que aqui não temos uma turma e sim 17 alunos soltos que se conheceram apenas de vista ou ficaram amigos nas festas ou nos bares. Apesar disso, estamos cientes de que seremos futuros colegas de profissão e possivelmente poderemos nos esbarrar em diversas situações.
O fato é que, por conta da diversidade não contemplada nas cerimônias de formatura, muitos alunos do curso de História não participam desse tipo de evento.
Fica, nesse sentido, a reflexão do por que será que tantos alunos abdicam deste momento e decidem colar grau em gabinete...
Apesar de toda nossa crítica, estar aqui hoje representa um privilégio.
Primeiro, o de termos entrando em uma Universidade.
Segundo, o de termos estudado em uma Universidade Pública.
E, terceiro, o de termos conseguido nos ‘formar’ nesta universidade.
Ser um privilegiado significa que você tem algo que a maioria das pessoas não têm: o acesso ao ensino superior público e gratuito. Então, será que podemos ter a alegria plena desse privilégio?
O curso de História nos fez ter a noção de que não podemos nos contentar em passar a vida reclamando do problema educacional deste país, mas sim que devemos arregaçar as mangas e fazer algo de concreto no sentido de modificar esta realidade, mesmo que isso signifique abdicar de um futuro farto e confortável.
Por isso, senhores pais, por favor, não lamentem que a carreira de seus filhos não aponte para um futuro materialmente farto.
Senhores professores, magnífico reitor, por favor, não utilizem o tempo de seus discursos para procurar alternativas para a pobreza que aparentemente bate à nossa porta.
Amigos de outras áreas, não nos olhem com pena...
Há entre os alunos de História pessoas que renunciaram a empregos públicos, pessoas que abandonaram cursos de Direito e até mesmo de Engenharia...
Não somos coitados. Abdicamos das tais “melhores opções” pelo desejo sincero e verdadeiro de fazermos o curso e nos tornarmos professores ou pesquisadores de História. 
Além disso, pelo fato de que, acima de tudo, acreditamos em uma educação pública e de qualidade, sem enchermos a boca para falar neste discurso.
Pois, mesmo sabendo de todos os problemas pelos quais um professor passa em sua profissão, ainda assim escolhemos esse ofício.
O fato é que hoje é um dia de muita alegria. É um momento muito esperado e significativo para quem teve a perseverança de passar 4, 5, 6 ou mais anos dentro desta universidade, insistindo neste diploma.
Por isso, pedimos a todos os presentes que entendam que algumas pessoas têm a compreensão de que a felicidade não é diretamente proporcional ao tamanho da conta bancária.
Somos extremamente críticos e reflexivos, por isso peço em nome de todos os estudantes de história, não nos meçam com vossa régua, não nos pesem com vossa balança. Conhecemos bem as amarras desse sistema opressor, autoritário e desumano. Nosso sistema de pesos e medidas é outro. Temos outros valores.
Somos historiadores! E estamos muito contentes com isso!!!

Pelas colegas Denize Gonzaga Santo e Eloisa Rosalen

sábado, 9 de julho de 2011

Agradecimentos da monografia

Sei que não são todos que poderão ler ou comparecer a defesa nesta quarta feira (13.07) por isso, gostaria de deixar aqui registrado os agradecimentos feitos na monografia.

AGRADECIMENTOS 

Agradeço inicialmente à minha família, Sobreira, Vailati e Padilha, pois, é devido à educação e orientação que eles me deram ao longo da vida que escolhi seguir em busca de meus próprios sonhos e desejos, os quais estão se materializando também com o encerramento dessa etapa.

Agradeço especialmente meu pai Jorge Luiz Vailati, que sempre me incentivou, emocional e economicamente, a seguir meu próprio caminho, mostrando que a simplicidade e humildade devem sempre ser a base para todo conhecimento e produção.

Agradeço ao meu avô Paulo Sobreira por suas colaborações e correções a este trabalho, assim como o financiamento para os livros que tanto são necessários. Agradeço-o por seu apoio incondicional, mesmo que tenhamos visões diferentes sobre vários aspectos da vida.

Agradeço a minha namorada e companheira Marina Monteiro, que dedicou suas (e nossas) horas corrigindo, formatando e, principalmente, me incentivando no cansativo processo que é o desenvolvimento de uma monografia. Agradeço-a por todos os beijos e puxões de orelha necessários para a continuidade deste trabalho.

Agradeço ao meu pai (emprestado) Alexandre Augusto Padilha, que mesmo com os laços documentais rompidos, continua abraçando-me como a um filho e dando-me carinho, casa e socorro sempre que necessário.

Agradeço a minha mãe Ana Patrícia Sobreira por ser esse ser único sempre pronto para me dar carinho, mesmo que através de demoradas ligações interurbanas ou nos poucos momentos em que passamos juntos.

Agradeço a família Monteiro por ter me abrigado durante o processo de pesquisa e escrita desta monografia, dando-me conforto e acomodações suficientes para que eu pudesse trabalhar tranquilamente. 

Agradeço a meus amigos de Brasília, os irmão negos Sergio Azul Caetano e Fabricio Mattos, além de Flávia Toscano e Polyanna Peres, por sempre acreditarem em mim e me apoiarem em qualquer decisão, mesmo que essas tenham nos deixado Kms de distancia física.
Agradeço aos meus companheiros de república, Greg Gianelli e André Parachen que demonstraram que amizades e companheirismo, mesmo que dotados de muitas diferenças pessoais, são os elementos essenciais para a manutenção de um lar e convívio em grupo, além do fortalecimento de amizades (espero) duradouras.

Agradeço ao mestre (quase doutor) Alfredo Ricardo, o Kado por todos seus conselhos e ensinamentos e, principalmente por mostrar que um espírito jovem e determinado pode se alcançar seus objetivos com dignidade.

Agradeço ao amigo e pedagogo Fábio Will, por seus conselhos na difícil arte de lecionar! 

Agradeço a todos os (não mais) calouros, especialmente os amigos André Vinicius Carrinho, Thomá Farines, Paola Rosa e Suellen Lemonje que tornaram a minha graduação um momento de ótimas memórias e digna de muitas saudades.

Agradeço especialmente a amiga Giovanna Calabria, que sempre esteve ao meu lado, fosse o lugar ou enrascada em que estivéssemos.

Agradeço ainda a turma 2006.1, minha turma de origem neste curso, que através das muitas diferenças e peculiaridades me ensinou sobre as relações humanas.

Especialmente, agradeço a amiga Pamella Liz por todos os abraços e insultos carinhosos que trocamos ao longo do curso.

Agradeço também as amigas Elis Marina e Livia Neves por todo o apoio emocional durante esta etapa final de minha graduação.

Agradeço a minha coordenadora Scheila Nascimento e minha chefe Marisa por ter acreditado em meu trabalho desde o primeiro momento.

Agradeço a minha orientadora Claricia Otto que aceitou o desafio de me orientar, mesmo quando tudo indicava que não o devia fazer.

Agradeço aos professores Paulo Pinheiro, Joana Pedro, Renata Sigolo, Maria de Fátima Piazza por todo o conhecimento dividido e por ensinar que humildade e conhecimento caminham lado a lado.

Agradeço aos meus alunos, por todo o seu carinho e compreensão, mas principalmente por inspirarem esta pesquisa.

Agradeço a meu cachorro e companheiro Thor, fiel e estabanado boxer, que sempre me ouve e está disposto a longas corridas pela Beira-mar em momentos de alívio de stress do trabalho.

Não foi minha intenção deixar de listar aqui nenhum nome de meus entes e pessoas queridas, para isso, precisaria bem mais que as 126 páginas aqui presentes, por isso, agradeço a todos e todas que de alguma forma influenciaram a minha vida para que este momento em especial pudesse se realizar.

A todos, o meu muito obrigado!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Beije


The Kiss por Romero BritoBeije
Beije
Beije por vontade, vaidade ou mesmo necessidade
Beijo por tesão ou insatisfação
Beije seu pai, seu namorado ou a um total estranho
Até mesmo seu cachorro, beije-o, mas depois limpe a baba
Beije alguém do seu passado,
Beije alguém do seu presente
Beije alguém (que depois desse beijo), com certeza estará no seu futuro.
Roubado, ganhado, ou dado
Beijo é sempre bom
The Coppers por Banksy
Ainda mais quando é acompanhado de um abraço e um cheirinho.
Dê um beijo pela sua saudade
Receba um beijo de bom dia e vai trabalhar amor
Receba um beijo de um beija-flor, que lhe invade a casa e parte a voar,
Pois esse beijo é de alguém que morre de saudade docê
Receba um beijo cheio de cores ao estilo Liechtenstein
Ou ainda mais colorido como o de Brito
Receba beijos de uma rosa de Seal
Ou como Chico, um beijo de hortelã para acordar
E um de café esperando para o jantar
Dê um beijo marginal, pregado a paredes como os de Banksy
Ou em pequenos pedaços como Klimt
Pode até ser um beijo de macarrão com a sua dama
Ou um beijo do gordo ao final da noite.

Beije sem se preocupar.
O rosto, a boca ou onde sua imaginação mandar
The Kiss por Roy Lichtenstein
Beije por beijar,
Beije por amar
Beije por não ter absolutamente nada pra fazer
Beije de “é, por que não?”
Bitoca, selinho ou beijão
Beije sem moderação.
Agora com licença, que eu vou ali beijar






segunda-feira, 4 de abril de 2011

De olho no futuro

No ultimo fim de semana foi lançado nas ruas da capital catarinense o mais novo modelo da mais alta tecnologia militar desenvolvida para a indústria automobilística.
Produzido pelo Centro de Tecnologias da Universidade Federal de Santa Catarina, em parceria com a fundação nature survive, o carro anfíbio é a mais nova alternativa para os processos catastróficos ambientais atuais.
Projetado para andar em todo tipo de solo, o carro anfíbio resiste a enchentes urbanas muito comuns nas cidades de São Paulo, Rio e Brasília; lama das regiões serranas e interior de Minas Gerais, areia para as áreas litorâneas e asfalto para as demais cidades brasileiras e mundiais.
Preocupados também com a condição geográfica e morfológica da ilha de Santa Catarina e a probabilidade de que a grande onda de tsunamis  que têm atingido Ásia, América e parte da Europa efetivamente chegue as cidades litorâneas o projeto do carro anfíbio também está disponível na versão água salgada. 
O teste recente pôde ser visto pelos moradores e/ou freqüentadores do calçadão  da Avenida Beira-mar Norte. Alguns atletas se assustaram com o carro totalmente submerso na água. Vira-se para o jornalista ali presente e diz:
- O mô quirido, avião de rosca até que não assusta mais, max esse carro que mais parece um sapo, nunca vi não


quarta-feira, 9 de março de 2011

Amor e posse


“O amor é egoísta”, foi o que me disse a mãe preta quando perguntei a ela sobre o amor.
Pensei muito naquela frase, por dias eu pensei, questionando, refutando, argumentando e contra argumentando seguidas vezes em minha mente.
Como pode ser o amor algo tão mesquinho como o egoísmo?
Perguntei a um amigo lingüista sobre a palavra egoísta; ele me explica que a palavra tem como uma de suas bases a alusão ao ego. Ego, localidade na mente onde ficam os desejos da alma, desejos por vezes tão ocultos que nem mesmo Freud poderia desenterrá-los.
Busco em Dante os desejos e sentimentos mais hediondos que a mente pode produzir. Sexo, vaidade, dor, tortura, morte, posse. Eis minha vilã. A posse.
Na cultura ocidental de um modo geral a posse é comumente confundida com a própria essência do ser. Ato este totalmente compreensível ao tratar de uma sociedade individualista em que os conceitos de posse e poder estão diretamente emaranhados. Mutualístico pode-se dizer. Mas ainda existem correntes que conseguem separar o ser das posses ou poder que estas representam.
Busco por uma definição do ser novamente na lingüística. Ironicamente no inglês a mesma palavra que é utilizada para a conotação ser, também tem serventia de igual valor quando usada na conotação de estar. É possível ser e estar ao mesmo tempo? “ eu estou com fome” é totalmente diferente de “eu sou a fome”. Na primeira sentença a fome pode ser facilmente sanada com um prato de comida, porém na segunda sentença não há cardápio no mundo que mude tal situação, posso concluir que o ser é imutável? Sendo esse o caso, o amor é e sempre será egoísta?
Para os que amam é necessária a posse do objeto amado? E esse amor é representado pelo sexo, pela dor, pela paixão ou mesmo pela vaidade? É o amor que se transforma em dor quando há partida ou desilusão?
Em algumas filosofias orientais a perda é parte crucial do aprendizado árduo e é somente após anos de aprendizado que se alcança o verdadeiro amor. Puro e sem interferências dos sentimentos ou paixões. O amor está no ato de contemplação da vida, pura e simples. Agradecer pelo momento vivido e continuar a contemplação das várias esferas da própria vida.
Talvez no ocidente seja preciso rever alguns conceitos básicos, começando pela vilã em questão, a posse. No ocidente, posse significa eternidade, algo somente pertence a alguém se este bem (normalmente físico) foi somente desta pessoa e por todo o tempo. Até mesmo pessoas são possuídas e possuidoras de outras. Ao falarmos “meu marido, minha namorada, meu pai, minhas amigas...” limitamos a pessoa em questão a algo que nos pertence, que está diretamente ligado a nós.
O apego é a prova máxima do amor ocidental. Agora faz todo sentido na verdade: “o amor é egoísta”, lógico! O apego está diretamente ligado a posse. De alguma forma, quando se ama alguém (ou alguma coisa) e se apega a este ser, não há vontade de deixar partir, perder ou mesmo dividir, pois sendo o amor egoísta, ele possui a pessoa e sendo ela uma posse, deve permanecer enquanto existir o amor, que deve durar para sempre (como todas as construções de um ideal romântico de eternidade dos atos e memória)
Talvez se fosse possível o amor não estar ligado à posse, ou pelo menos, não ao ideal de que a posse deve ser eterna para se caracterizar com válida e existente. Talvez assim houvesse o amor tal quais os orientais escrevem sobre, contemplação do momento, gratidão pela existência e pela duração e abertura para novos momentos e aprendizados. 


Imagens: 
"Love" artista desconhecido, foto do google!

terça-feira, 8 de março de 2011

Em minhas linhas

Era uma noite quente como as de verão, porém agora está agradável, uma leve chuva cai lá fora, regando as plantas, trazendo a nova vida à tona.
Na vitrola um disco feito quase que sob medida para noites assim. Um soft jazz na voz de uma bela mulher, o piano ao fundo flertando com a percussão, soma que me embala sem o menor esforço
Fecho os olhos e me deixo levar, flutuar junto a sua bela voz, deixo que ela entre em meu corpo, ouço o som da chuva na telha de barro, o cheiro da terra molhada mesclado ao incenso massala que como que estivesse com preguiça queima, libera sua valsa de fumaças e odores.
Há muito que não escrevia em linhas, meus dedos chegam a reclamar de tal esforço, mas eu gosto dos desenhos que as letras fazem na folha branca. Gosto do som do acoite da caneta e tinta ao papel.
A cidade está em festa, é carnaval e todos vão às folias em busca de diversão, pequenas doses de paixões, ou mesmo em busca de si mesmo. É exatamente nesse momento que me recolho, sozinho em minha cama.
Triste é o fato que para tal ato, tenha eu que machucar que tanto preso, causar-lhe dor e magoas. A ti, peço perdão pela dor que lhe fiz sofrer. Quantas delas eu fiz sofrer? Por quantas sofri? Quantas amei? Todas? Nenhuma?
Gostaria que o amor fosse algo mais simples, como uma receita de bolo por exemplo. Alguns bolos são deliciosos, simplesmente deliciosos, sem caldas ou grandes enfeites. Alguns murcham ao sair do forno, outros são belos, mas não saborosos.
Não há problema em errar a receita, pode dar certo, ou não. Mas caso não dê certo, pode-se voltar à receita e começar tudo outra vez. E quanto ao subjetivo amor? Não há receita ou guia, não há quem mostre onde foi o erro?
Nessa noite de carnaval, enquanto todos procuram suas pequenas doses de aventura e diversão, me retiro do mundo, ouço o som da agulha no fim do disco, ouço a chuva que cai, sinto a brisa fria entrar, sinto um arrepio subir por minha espinha.
Nessa noite de carnaval, curtirei a mim mesmo...abandono ao fim destas linhas todos e todas, passado, presente e futuro e principalmente ao futuro do pretérito. 

quarta-feira, 2 de março de 2011

Coça coça!



Eis um pequeno conto sobre uma coceira, coceira impiedosa e constrangedora... Uma bela semana, voltando de meus treinos diários, sinto uma pequena coceira, mas um tanto quanto inconveniente, pois a localidade dela poderia causar certo desconforto em que estivesse olhando eu me coçar. Mas até então, acreditava eu não ser nada, afinal, costumo dormir de janela aberta e poderia ser uma simples picada de mosquito, um tanto quanto abusado esse mosquito, mas ainda sim uma picada.

Pois bem, passam-se uns dias e a coceira permanece agora cada vez mais lembrada e incisiva, mas ainda sim nada preocupante. É então que a primeira noite de coceira acontece. Dormir no verão pode ser um pouco complicado, o calor que não cessa, o ventilador que não sopra suficientemente, os mosquitos infernais que param de zunir no ouvido, ou seja, o clássico dilema veraneio: me cobrir e passar calor, mas ficar sem mosquitos; ou não cobrir, ficar fresquinho e agüentar os zunidos ao pé do ouvido.  Adicione a isso uma constante coceira nas pernas e terá a receita perfeita para péssimas noites de sono.

Um dia de muito mau humor veio na seqüência da noite de mosquitos e coceiras, porém agora com ainda mais delas. Mas que merda de coceira, porque você não foi acontecer no meu braço, justo ali, não posso coçar nada.

Tento usar técnicas mil para conseguir um alívio rápido para tal infortúnio.  Quando garoto, usava a técnica da mão no bolso para arrumar a cueca que comumente apertava-me. Um pequeno alívio, mas ainda existe a coceira, mudar a posição na cadeira, isso vai ajudar, não não, de volta à anterior, droga, não consigo ficar daquele jeito outra vez, onde será o banheiro mais próximo. Ai como isso coça!

Num ato desesperado vou ao banheiro e decido retirar todo e qualquer pelo daquela região. Muitas passadas de gilete depois, tudo limpo, fico pelado como um bebê. Mas que visão mais bizarra, a ultima vez que o vi assim eu devia ter uns dez anos e tudo parecia tão diferente.

Vou treinar, me distrair, não pensar, é só não pensar nela que não irá coçar! Trocar de roupa com muito cuidado para nada encostar a lugar nenhum. Poutz, não rola de usar uma cueca-box para treinar, melhor colocar as normais mesmo. Merda, a costura da normal pega bem na virilha, ai que coceira. Vamos logo, treino, distração!

Na academia, antes de ir escalar, sempre corro aproximadamente meia hora na esteira para perder os quilinhos adquiridos no ultimo inverno. E lá vamos nós, correr. Grande, imenso, gigantesco erro. Correr causa suor, muito suor. Correr causa atrito da roupa na pele, somando suor e atrito o resultado só poderia ser um: mais coceira. Mas eu agüento, até o fim da esteira eu agüento, aperta o apoio de mão, morde os lábios, não adianta, pensa em outra coisa, olha a gata malhando, NÃO, não é uma boa idéia, definitivamente não quero deixar a região ainda mais sensível, olha para a TV, propaganda do carnaval, propaganda do Big Brother. PelamordeDeus só tem bunda na TV brasileira.
O relógio apita, finalmente, corro para o banheiro, me enfio na ducha gelada e sinto meu corpo agradecendo por aquela benção divina. Coloca a roupa seca, preciso ir a uma farmácia agora.

- já vai cedo Thiago – diz meu treinador e dono da academia

- Pois é, tenho um compromisso agora, não vou poder ficar pro resto do treino hoje.

Tenho sim um compromisso com o farmacêutico. Já chego pedindo o clássico vodol e um hipoglos. Esses saem muito essa época do ano- diz o farmacêutico que também recomenda um sabonete intimo, como os que as mulheres usam, pois assim, “neutraliza o ph da irritação”
Ph da irritação, essa irritação tá mais pra Ph.D isso sim , mas gente boa esse farmacêutico, solidário a minha dor. Outro banho frio, agora usando o tal sabonete intimo, realmente sana bastante a vontade de coçar, pomada, ventilador e, por favor, uma boa noite de sono, amanha tenho reunião na escola e não quero estar de mau humor e muito menos me coçando na frente da minha chefe.

A manha começa tranqüila, banho, sabonete, pomada, roupas e rua, so far so good! Reunião, em circulo, por que sempre em circulo? “assim todos se vêem” - diz a coordenadora pedagógica, mal sabe ela que o que eu menos quero nesse momento é alguém fitando eu enfiando mão calças adentro. As horas passam e as metodologias que já são normalmente cansativas agora estão impossíveis, novamente, não pensar na coceira, eu consigo controlar a minha dor com a mente, não pense na coceira, não pense na coceira, droga, eu estou pensando na coceira ao pensar em não pensar nela. Acaba reunião, por favor, acaba!
Ainda nos corredores da escola, tomo meu telefone e ligo para a clínica marcando uma consulta. Como assim só tem urologista daqui a dois dias, okay, pode marcar, na primeira hora da manha, por favor!

Mais duas noites de muita coceira e consequentemente dois dias de muito, mas muito mau humor e pouquíssima produtividade. Além é claro de situações constrangedoras como um ataque subido na fila do banco, ou no meio do trânsito sentado a minha moto, por que raios não tenho um carro para andar pelado dentro dele, ninguém veria. Houve até uma desistência de cinema, por não agüentar colocar as calças.

O dia da consulta chega, finalmente vou a um urologista. Função nobre e ingrata essa, ter que olhar pênis alheios o dia todo e alguns nas piores condições possíveis. Entre a tensão do momento e da coceira me sento a esperar pelo médico.

- Pode entrar Thiago, o médico já o está esperando.

Ao entrar, eis o susto, meu médico é muito parecido com o comediante Marcelo Adnet, inclusive seu tom de voz e expressões, cheguei a pensar numa pegadinha, mas quem faria pegainhas num consultório dessa área? 
Nada delicada seria essa produção. Pois bem, explico ao Adnet da saúde ali a frente o que se passava comigo e com meu grande companheiro.

- Isso é bem comum essa época do ano – diz o Adnet de jaleco e luvas – todos temos fungos que vivem na pele, em alguns casos, como o seu, eles encontram um ambiente propício para se desenvolver, como foi o caso do calor e suor do seu corpo.

- Mas eu sempre tomo banho pós treino, no verão chego a tomar quase cinco banhos por dia para poder me refrescar.

- Não é questão de higiene, mas de calor, seu corpo está muito quente devido ao Sol e as várias atividades físicas que você está fazendo, o que torna propício para o desenvolvimento. Não se preocupe, em uma semana você estará livre das coceiras. Pelo menos causadas das alergias sim, agora quando aos pelos...

- Mas pelo menos vai ajudar né? Não ter pelos, não retêm a umidade (diz que vai ajudar, que isso não foi uma completa idiotice da minha parte)

- Sim claro, provavelmente vai agilizar o tratamento, agora deite aqui e baixe as calças até a altura do joelho.
Eis que penso: faço a piadinha do vinho? Acho que não, é de manha e o cara ainda vai ter que ver pelo menos uns dez pintos feios só nesse turno.

E ele coloca as luvas e a mascara, estica para lá, aperta para cá, e eu ali, com aquela cara de tem um cara mexendo no meu pênis. Será que ele imita o Silvio Santos se eu pedir; outra pergunta, caso eu tenha uma ereção, ele se sentiria ofendido ou lisonjeado? Céus que profissão mais ingrata essa!

Terminado a exame prático, ele me prescreve uma pomada um pouco mais forte e explica que um vodol teria dado conta do recado caso eu não tivesse raspado a área, devido ao atrito da gilete com esta área, a pele ficou ainda mais sensível que o habitual e a irritação aumentou. Mas que o remédio daria conta. Porém, serão duas semanas sem relações sexuais e bebidas, pois o uso da camisinha pode irritar a pele e o álcool corta o efeito.
Duas semanas de besunte, cuecas largas, sensualidade zero e torcendo para que nenhuma mulher resolva que me quer nessas semanas.

Preciso voltar lá no Dr. Adnet, agradecer pelo tratamento. Seria estranho mandar flores ou chamá-lo para uma cerveja pós - expediente?